29 de março de 2011

O "País" somos nós...

Não é fácil viver num país que está sempre "no fim da lista".
Esta expressão de "reconhecimento" é, desde há muitos anos, sinónimo da "maneira de ser" lusa.
Há dias lia uma "estória" (teoricamente) verdadeira, na qual dois diplomatas portugueses reflectiam sobre o tal "Ser Português".
Dizia um que "não compreendia o porquê de um povo que viu nascer grandes exploradores e navegadores, que deram Mundo ao Mundo, se ter afogado numa proverbial mesquinhez e insensatez".
Ao que o outro responde: "Não, amigo. Estás enganado. Os portugueses que temos hoje não são descendentes dos que foram. São-no dos que ficaram!"
Infelizmente, sou tentado a concordar com esta sábia resposta.
Escrevo hoje agastado com os "acontecimentos do dia". Por mais que tente, neste espaço, reflectir apenas "a frio" as incidências da minha "vida" profissional, não posso deixar de "comentar" como me sinto tão "pequeno" quando testemunho, no dia-a-dia profissional, a evidência que a "culpa" de Portugal são mesmo os portugueses.
Podemos esmerar-nos por fazer aquilo em que acreditamos, individualmente, e, ao acreditarmos, podemos potenciar um conjunto alargado de mais-valias em nós e nos outros.
Podemos dar o que (sabemos) os outros não dão, apenas porque acreditamos que, num espírito solidário e de apoio mútuo, é importante construir, mais do que destruir.
Podemos envolver-nos porque esse envolvimento funciona como um convite à participação de outros. Podemos empenhar-nos porque sabemos que, num âmbito global, esse empenhamento nos será devolvido, mesmo que de formas muito simples.
O que não podemos é combater a inveja, a mesquinhez, o egoísmo destrutivo que tem, como objectivo único, a debilidade do conjunto.
Num momento em que ouvimos o nosso colega, o nosso vizinho, o nosso familiar a "queixar-se" da situação do "país", dos governantes, das instituições burocráticas e imobilistas...
Num momento em que, para "sair da crise" é fundamental "pensar mais além"...
Num momento em que, acima de tudo, deveríamos acreditar no esforço cooperativo e colaborativo...
...É-nos difícil aceitar que as palavras são vãs.
Sou profissional num local onde, por variadíssimas razões (e sobretudo pela minha "história" profissional), sinto que se trabalha com um espírito incomum de dedicação, de competência, de criatividade e de excelência.
Ao contrário da maior parte dos locais por onde passei anteriormente, assisto hoje a dinâmicas que nos permitem, localmente, "dar o melhor de nós". Fazemo-lo porque acreditamos que, numa perspectiva global,os ganhos desse envolvimento serão aproveitados por muitos. Muitos mais do que apenas os "clientes" naturais dessa acção.
Mas, esse nível de dedicação causa inveja. E, naturalmente, cria "anti-corpos".
E o mais difícil é encontrar vacinas para esse espírito mesquinho de inveja.
Sempre acreditei que, das boas ideias e das boas práticas se deve pensar: "Excelente. Também quero fazer assim!".
Infelizmente, em Portugal, a maior parte das pessoas (mesmo que diga o contrário), pensa: "Que m.... Não fui eu que tive essa ideia. Ora deixa lá pôr aqui um grãozinho de areia na engrenagem..."
E, pior mesmo, é que, normalmente, esta atitude negativa causa mais mal do que bem.
E desmotiva.
Talvez amanhã seja outro dia!

20 de março de 2011

Género?

Mais uma vez (sim, já "respondi" a alguns apelos destes!), irei dar o "meu testemunho" num programa de televisão sobre a questão do género no trabalho.
Partimos, normalmente, do princípio que algumas profissões são muito identificadas com um género. Os polícias têm de ser homens. Os construtores civis também. As costureiras só podem ser mulheres...
Não me revejo nesta "divisão machista" do trabalho.
Sei (por experiência), que, muito mais importante que a questão do género é a questão da competência no exercício da função. E, acima desta, a questão dos resultados obtidos.
É esperado que "seja notícia" um homem que desempenha uma função identificada como "feminina".
Não compreendo, mas aceito, dada a "anormalidade" da coisa.
Mas interessa-me, sobretudo, reflectir a competência para a realizar (a função) e não tanto a lógica de género.
Tenho em mim a ideia que qualquer que seja a função, deve ser, fundamentalmente um espaço de realização pessoal e de procura pela "Excelência".
Nesta perspectiva, não há (ou não deveria haver) profissões masculinas ou femininas. Aceito que, devido a essa "desigualdade" de tratamento, exista quem "sofra". E não posso deixar de reconhecer que, na maioria das vezes, as mulheres são mais prejudicadas.
Mas, quanto a mim, posso afirmar que não me é fácil ser Educador de Infância.
Tenho passado muito tempo a provar que o facto de "não ser mãe, mulher...", não me impede de ser bom profissional. Tenho, inclusive, passado bastante tempo a demonstrar inequivocamente que a "falta de instinto maternal" não é impedimento para se ser um profissional competente.
E, independentemente do esforço, é entre pares que as coisas são mais difíceis.
Mas, para que fique claro, a questão da competência é assexuada. Perseguir a Excelência não é uma responsabilidade de género. É um imperativo social.
Sei que teria a mesma atitude face ao trabalho em qualquer outra profissão que tivesse escolhido.
Mas, enquanto for mais importante "falar" das questões de género, dificilmente daremos real importância ao que interessa: produzir com qualidade e procurando a excelência no que fazemos.
Por tal, enquanto se "falar" de género, não se falará de Qualidade. E isso é problemático, principalmente num país que luta deseperadamente para sair do fosso em que se meteu...
Talvez da Finlândia não necessitemos apenas do exemplo educativo, mas, sobretudo, do modelo de "igualdade de género"...

13 de março de 2011

Auto Retrato...

Normalmente, tenho alguma relutância em "falar de mim" na primeira pessoa.
Assumo o que digo, o que escrevo e mesmo o que penso, mas, poucas vezes o faço de forma directa. Talvez por modéstia, ou mesmo por timidez, mas acima de tudo porque é importante que me "ouçam" pelo que penso e pelo que sou, e não tanto pelo que tenho ou quero.
Mas este texto, publicado no Jornal de Letras (quinzena de 9 a 22 de Março), faz jus ao que sou...
Espero que gostem...

Quem somos?

Desde há algum tempo que recebo, por correio electrónico, por mensagens instantâneas, através do facebook ou por outros canais, informação, divulgação e convocatórias sobre grupos, ajuntamentos, colectividades e outro tipo de associações,  para me juntar a movimentos e ideologias que se querem, elas próprias, "livres de ideologias".
Lia ontem, na Visão desta semana as prerrogativas governativas do "novo" PSD...
Fico preocupado.
Sim. Bastante preocupado.
Estou preocupado porque, somando tudo, há algumas coisas que necessitam de uma profunda reflexão, que não vejo estar a ser feita:
- O facto de ser crescente o número de "iniciativas" que visam "destituir" o modelo governativo (como por exemplo, o "1 milhão pela a demissão..."), revela, não só um crescente descontentamento das pessoas mas, acima de tudo, uma crescente incapacidade para lidar com os "problemas", pois, em nenhuma iniciativa, nos é apresentada uma alternativa credível;
- Como é que um partido como o PSD (com longo historial neste país "democrático", onde os apoiantes "de agora", foram os "indefectíveis de outros", num passado recente) se propõe a mudar, sabendo nós que a história é cíclica e confirma as escolhas passadas;
- Como é que este país, de cidadãos que acabaram de votar, para Presidente da República, num rosto sobejamente conhecido (para o bem e para o mal!), antecipa as mudanças obrigatórias, se pela mão dos "mesmos de sempre"?
- E, por último, como é que, no fim do túnel, nos libertaremos dos interesses económicos e financeiros que têm sustentado os "delírios" governativos dos últimos anos?
Sei que, normalmente, quem questiona é "advogado do Diabo", "mal-intencionado" ou ainda "mau Português". É o costume.
Mas gostava mesmo de saber quantos dos que ontem se manifestaram em todo o país estão disposto a mudar(-se) mesmo?
Mas mudar-se a eles próprios: deixar de pensar em si e no seu umbigo e pensar, solidariamente, no país que nos alberga e no Estado que nos ajuda...
Quantos?
A culpa é sempre dos outros. Mas talvez fosse a hora de começarmos por nós mesmos.
Frases como "se me tiram 3% do ordenado, não dou nem mais um minuto..." têm de ser reequacionadas...
Porque, se "me tiram" agora foi porque me habituei a "viver dos outros" antes...
Pode este discurso parecer reaccionário, violento e/ou despropositado, mas, para quem me conhece e tem acompanhado alguns dos escritos aqui divulgados, sabe que defendo que a mudança começa em cada um de nós, no dia-a-dia, no grau de exigência com o nosso trabalho, com as nossas chefias, com os nossos colegas, com as nossas famílias...
Um exemplo "brando": se todos os portugueses fizessem uma efectiva reciclagem de resíduos, a "factura energética" ganhava cerca de 35%(!!!), e assim, todos poderíamos beneficiar de uma menor pressão financeira sobre os produtos energéticos...
E este é apenas um de muitos exemplos possíveis.
Por isso reafirmo: mudemo-nos antes de querermos a mudança dos outros!

20 de fevereiro de 2011

Às voltas...

Alguns dizeres, opiniões, artigos da comunicação social, textos editados e publicados nos mais insuspeitos espaços e até comentários ouvidos no café me deixam, não raramente, literalmente, às voltas.
Nestas últimas semanas, a propósito da nova canção dos Deolinda, dos idosos encontrados mortos em casa, das reflexões à volta dos lucros dos bancos (e dos seus diminutos impostos!), da redução do número de deputados na Assembleia da República e até da proverbial Moção de Censura, a apresentar pelo Bloco de Esquerda, foram muitas (mas muitas mesmo!) as vozes que vieram a lume fazer a "queixa" do costume: "a culpa é deles!".
É sempre interessante revermo-nos nos outros. É ainda mais interessante "opinar", criticar, culpar, ofender, relativizar, responsabilizar, e todas aquelas outras coisas que (dizem os outros) é "expressão do ser português".
Não quero (e não vou) entrar em grandes análises e reflexões filosóficas, etológicas, étnicas (e éticas) ou de valores, mas deixo algumas perguntas...
1. Quem, de entre nós, nunca estacionou o veículo num passeio, impedindo, dessa forma, a fácil circulação de pessoas com mobilidade reduzida?
2. Quem, de entre nós, "olhou para o lado" sempre que testemunha de um acto de agressão física e/ou verbal, entre conhecidos, por "não ser nada comigo"?
3. Quem, de entre nós, nunca ameaçou o filho/sobrinho/educando com um "portas-te mal e eu vou dizer ao polícia"?
4. Quem, de entre nós, nunca deixou de ir votar por alegar "que eles são todos iguais"?
5. Quem, de entre nós, nunca perguntou ao amigo/conhecido se "não tens ninguém lá na repartição que possa dar uma ajudinha para desbloquear o meu caso"?
6. Quem, de entre nós, não pediu a respectiva factura depois de ter mandado reparar o esquentador/o cano/os sapatos, apenas porque "sem IVA é mais barato"?
Estes, e muito mais exemplos que aqui poderia escrever são, sem sombra de dúvida, o melhor retrato desta insistente e definida cultura de "deixa andar" que tão bem nos caracteriza.
Num post anterior, reflectia, com base em palavras de outros, sobre essa luta que é (seria!) a solução para "todos os males": a acepção da Excelência.
Mas, para isso, seria necessário que conseguíssemos, num rasgo de inteligência colectiva, substituir a expressão "a culpa é deles" por "a culpa é nossa"!
Mas isso obrigaria a que a solidariedade do Estado fosse, acima de tudo, a solidariedade do indivíduo.
Pois é. Infelizmente, o Estado somos todos nós. Até quando nos demitimos de o ser!
Era bom pensar nisto (designadamente, antes de falar em coisas das quais somos os primeiros e últimos responsáveis)!

Breve glossário:
1. Aqui se vê, por exemplo, o "respeito" que temos pelo "outro". E, mesmo quando compramos uma casa, não nos interessa mesmo muito saber se, daqui a uns anos, quando já não conseguirmos subir um degrau, a rampa de acesso seria útil...
2. Um dos principais problemas de autoridade é mesmo o autoritarismo. E, sem querer entrar em grandes análises comparativas, os países onde a "igualdade de género" é maior, poupam cerca de 0,01% do PIB (este valor, em Portugal, é cerca de 2.000.000€)  em despesas médicas derivadas de assistência a situações de agressão "menor"...
3. Novamente a questão da autoridade: Quem respeita um Agente de Autoridade, cuja função é (deveria ser) manter a "segurança pública e mobilizar os cidadãos para a vida em sociedade", com "expressões" destas?

4. Votar é um direito e um dever. Escolher é sempre uma opção. Se não o fizermos, estaremos a desresponsabilizarmo-nos e, dessa forma, excluirmo-nos do "sistema". Que razão então para o criticar?
5. Sem mais delongas: Portugal ocupa a 32ª posição entre 172 países cuja "percepção sobre corrupção" foi "aferida " pela Transparency International. Nota importante, da Europa a 25, apenas três depois de nós...
6. "Fugir ao Fisco"... Mais palavras para quê? Se o país não tem dinheiro para distribuir, aumenta os impostos, e pagam os mesmos... ou seja, aqueles que não podem "fugir" (entre estes, por acaso, encontram-se os "funcionários públicos", sobre quem, por exemplo, se diz serem a "causa da desgraça"...)

10 de fevereiro de 2011

"Falta-nos um bocadinho assim..."

"Os portugueses parecem estar constantemente a pedir desculpa e a prever que não conseguem alcançar os seus objectivos"
Mats Olsson (Seleccionador Nacional de Andebol)

Tive hoje a oportunidade de ler uma das, senão a melhor, melhores reportagens feitas sobre "o que é ser português".
A ocasião foi um excelente trabalho da Visão, através dos seus jornalistas Francisco Cruz e Pedro Justino Alves ("Quando os de fora nos levam longe", Visão nº935), onde, como o título indica, se faz uma análise aos resultados obtidos por diferentes "estrangeiros" que desenvolvem a sua actividade profissional (neste caso, desportiva) nas selecções nacionais de diversas modalidades.
Começa a reportagem por esclarecer sobre o que, até agora, foi alcançado por cada um deles (os profissionais, entenda-se) e continua, discorrendo sobre as suas (deles) análises sobre o que contribui para o (in)sucesso nacional nas áreas que lhes competem.
Tendencialmente achamos que o que "vem de fora" é bom. Na maior parte das vezes não discordo. Claro está que, na maior parte das vezes deveríamos fazer uma efectiva adaptação dos modelos à nossa realidade. Mas, se na maior parte das vezes essa adaptação é, pelo menos, planeada, o que, na realidade acontece é que, invariavelmente, nos esquecemos de um "pormenor" importante: quem, na realidade efectiva o que se importa, são os agentes, os executores, ou seja, os portugueses!
E, daí, a pertinência e acuidade desta reportagem: um conjunto de "estrangeiros" com resultados observáveis, explicam e exemplificam a "incompetência" que, não poucas vezes, faz não alcançar um efectivo sucesso nacional.
Da leitura desta reportagem surgem diversas possíveis leituras: por um lado, o "dedo na ferida" é real e justamente aplicado, por outro, este "prognóstico" não é, decididamente uma novidade (nem sequer uma verdade de La Palisse); de certa forma, esta análise é generalizável para outras realidades (que não a desportiva) e, por último, a "leitura" que se pode fazer destas opiniões muito localizadas é que nós, portugueses, somos muito bem lidos e interpretados por quem connosco convive e/ou trabalha.
Posto isto, esta "visão"merece-nos uma reflexão: tal como também referido pelo Mats Olsson, "Quem sabe ter a capacidades para chegar aos 100%, e embora tenha consciência de que 80% bastam, não desiste de se aplicar" luta por uma constante melhoria da sua Condição. É esse o objectivo da Excelência.
Ora, neste particular, quando os Docentes (por exemplo) contestam (entre eles) que "não há professores Excelentes" (como tantas vezes ouço!), como que a justificar a sua pouca vontade de obter uma classificação de desempenho que se situe entre os valores de 9,0 e 10 (na escala escolhida no modelo de ADD em vigor), estão, na realidade, a demonstrar, ipsis verbis, o que "dizem de nós".
Por outro lado, e aproveitando ainda uma outra citação, desta vez do Juan Diaz (Seleccionador Nacional de Voleibol) "...um dos problemas dos portugueses é, exactamente, o «medo de mudança», a falta de coragem para mudar de fórmula, quando os resultados não são satisfatórios", sublinho que, mais do que nunca, é este que se constitui como o paradigma da "modernidade" nacional: não se muda de governo, não se muda de vontade, não se muda de modelo porque "é mais fácil manter tudo como está", mesmo que a nossa vida esteja, como está, a atingir patamares de insolvência...
E, para terminar e, de certa forma "dar o laço" ao presente, a última citação (também do Diaz): "a passividade nacional tem causas sociais: os pais portugueses dão tudo de mão beijada aos filhos apresentando-lhes a vida como algo fácil e sem exigir responsabilidades em troca...".
No fundo, também nós, pais, fomos filhos!
Será que esta reportagem terá a audiência que deveria ter? Será que os 530 mil leitores da visão (anunciados pela própria) vão (mesmo!) ler esta reportagem e, espero eu, iniciar a respectiva "mudança"?...
Eu, posso dizê-lo, já a comecei (por acaso há algum tempo): não me contento com os 80%. E apesar de, ter, normalmente mais dissabores com essa atitude do que efectivas recompensas (sim, também fui desvalorizado em 3.5% da minha remuneração!), continuarei a tentar mostrar que vale a pena lutar por mais e melhor!

23 de janeiro de 2011

Porque será que não queremos ver o óbvio?

Neste momento em que escrevo (e faço-o depois de uma interrupção de quase um mês), acabo de ouvir a "declaração" de vitória do nosso "novo" Presidente da República.
Já há uns anos (quando da primeira eleição) escrevi algumas coisas que, então, me "atormentavam a alma" sobre a eterna dúvida dos portugueses acreditarem em si próprios, mas, desculpem-me o desabafo, acho, neste momento, que já não é uma dúvida: é uma certeza. Mas no sentido inverso: os portugueses têm a certeza que não acreditam em si próprios.
Não me é estranha nem inesperada a vitória do Presidente hoje eleito. Mas faz-me confusão que o tenha sido (e por mais de uma vez)!
Pode parecer uma posição partidária, mas, tenham a certeza, não é!
O actual Presidente é um conhecido e reputado(?) político, antes governante, inspirador de um modelo específico de governabilidade, no qual, por exemplo, o investimento em betão e maquinaria (que é uma metáfora para "investimento em Capital") foi o maior dos últimos cinquenta anos do país: Auto-Estradas, com as devidas "valorizações" para Brisas e outras concessionárias; divisão da Rede Ferroviária Nacional, com evidentes "valorizações" para empresas municipais e "amigos" (veja-se o caso do Metro do Mondego: 15 anos de Administrações muito bem remuneradas e, de Metro, nem os carris...); Centro Cultural(?) de Belém que aloja o espólio particular de um coleccionador, com evidentes vantagens para ele próprio; "morte" anunciada do Serviço Nacional de Saúde, com o maior aumento de sempre da iniciativa legal sobre "Seguros e Seguradoras de que há memória em Portugal; desinvestimento na Educação, com o Orçamento da Educação a baixar, em quatro anos de governo, 1,7% e, por último, a "nomenclatura" dispersa pelos "lugares-chave" das instituições (públicas e privadas) que sustentam a economia nacional...
Por tudo isto (e muito mais que haveria a discriminar), custa-me que os portugueses (pelo menos os que votaram) tenham dito, novamente, sim a este modelo social.
E, para aqueles que defendam que a eleição deste candidato será melhor para o "equílibrio" de poderes, relembro que, ao longo do último mandato, foram mais as "sintonias" (mesmo que de conveniência) do que as efectivas oposições. Porque terá sido?
Provavelmente porque o espectro político e ideológico é o mesmo. E para ambos os "modelos" representados nas principais figuras de Estado, há que fazer a classe média suportar as dificuldades, pois os "poderes" instalados deverão "continuar a convergir no esforço nacional", mesmo que isso signifique que empresas portuguesas tremendamente apoiadas para exportar, para desenvolver competência e para "proporcionar emprego" continuem (como se quer no modelo económico) a procurar o lucro (para alguns, diria eu), independentemente desse "lucro" não significar uma efectiva melhoria das condições de vida das pessoas.
Mas, parece, ficamos todos felizes, não é?

5 de dezembro de 2010

Fama e Proveito

"Fama sem proveito, faz dor de peito"
Provérbio Popular

Este será, quase de certeza, o meu "post" mais pessoal (por "falar" de mim, do que sou e do que sinto...), mas, não será, estou em crer, o mais individualista.
O título radica na constatação de que, na maior parte das vezes, o adágio popular tem razão de ser.
Na passada semana, desloquei-me a Espanha, a Madrid mais exactamente, para, na sequência de um convite da AMEI (Asociación Mundial de Educadores Infantiles) apresentar uma comunicação sobre o trabalho que desenvolvo, no Congresso Internacional "Capacidades, Competências e Desenvolvimento Infantil".
Tal convite, não só me honra enquanto profissional, mas dá-me também a nítida sensação de que o que fazemos (aqui, em Portugal), fazemos bem e merece reconhecimento.
Não posso deixar de dizer, neste âmbito, e apesar de ter sido o único representante português a apresentar evidências do trabalho desenvolvido, nomeadamente na Educação de Infância, que o reconhecimento que recebi indica, no que concerne ao trabalho de qualidade (assim referenciado pela organização), só temos de nos orgulhar por sermos entendidos como estando no patamar superior de práticas em Educação de Infância.
Voltando ao título do "post", quero ainda referir também (e nesta sequência de raciocínio) que a avaliação que obtive no último ciclo de avaliação da Avaliação de Desempenho Docente (independentemente da sua pertinência, acuidade e justiça, como de resto já o referi em outros "posts" deste blogue), me deixa num patamar superior, em termos de avaliação da prática.
Devo também referir que, no longínquo ano lectivo de 2007/2008, fui surpreendido pelo Conselho Pedagógico do Agrupamento onde à data desenvolvia a minha prática profissional, com um pedido de organização de um port-fólio para enviar para o então criado "Prémio Nacional de Professores", também, neste caso, em reconhecimento da minha prática profissional.
Servem estes (apenas) três exemplos para, então, reflectir sobre Fama e Proveito.
Dir-me-ão alguns que, tais factos justificam o proveito. Contudo, pergunto: qual proveito?
Refiro eu que são apenas uma forma de "fama". E porquê?
Porque, desde há muitos anos que o que faço, em termos profissionais, faço-o com o objectivo de fazer bem. De fazer de uma forma construtiva, reflectida, interventiva e atenta. Faço-o porque acredito que se "fizermos", na senda da Excelência, podemos, todos nós, beneficiar de uma efectiva melhoria da qualidade do que fazemos.
Mas, infelizmente, em Portugal, não é esse o caso.
Neste país onde a "recompensa" é, simplesmente, pensada em termos de "ganhos pessoais", ou em termos remunerativos, fazer bem só porque se acredita na qualidade do que fazemos (e, como referi, as evidências assim o sugerem) implica, necessariamente, passar para o "lado dos maus".
Ou seja, se, por acaso que seja, és reconhecido como competente, eficaz, pertinente e com qualidade, passas a ser um alvo a abater. Mesmo que essa tua "qualidade" o seja apenas porque acreditas nela.

No fundo, este país que recompensa a não intervenção, o seguidismo/carneirismo e (como li há pouco tempo) o "ouvidismo" (de "ouvi dizer"...), acaba por desmotivar e menorizar.
Não me move o protagonismo nem sequer a recompensa pecuniária. Ficaria feliz (bastante, diga-se) o reconhecimento de que as práticas, as reflexões e a sugestões podem ser úteis.
E mais feliz ficaria se não nos recusássemos a mudar o que pode ser mudado para melhor.
Há alguns dias, um colega de um outro agrupamento onde estive há já uns anos, telefonou-me a "dar a novidade" de que, algumas ideias que eu teria apresentado "tinham sido aceites e postas em prática", reconhecendo (o Departamento), dessa forma, a pertinência das mesmas.
Esse telefonema., julgo eu, pretendia dar-me uma espécie de "razão a posteriori" e, nas palavras ditas, deixar-me feliz.
Não fiquei.
Por mais que custe entender, o que sugeri em tempos fi-lo numa atitude eminententemente egoísta: pretendia, com a assumpção dessas "alterações" melhorar a minha capacidade e qualidade de trabalho. Nesse momento. Enquanto poderia ser usuário dessas alterações.
Sabê-las, agora, escolhidas (quando já nem sequer estou nesse agrupamento) não me deixa feliz. Pelo contrário. Faz-me pensar que sou eu a razão da "negação".
Infelizmente, e como referia antes, a tal questão da Fama e do Proveito é sempre relativa: se os "outros" referem a tua fama, melhor será então, que te aproveites disso, ou então, deixa-os pensar que só tens proveito, porque Fama é má publicidade.
Esta é a (infeliz) realidade.

"Nós não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos"
Anaïs Nin

7 de novembro de 2010

Greves e outras formas de Luta...

Começo por referir, para que fique claro, que nunca fiz greve e não tenciono fazer.
E porque é que não faço greve?
Antes de mais, quero também esclarecer que considero que todas as formas de luta, se justificadas, são pertinentes e objectivam um resultado. Contudo, a minha análise face às greves é que são, globalmente, estratégias desadequadas.
E porquê?
Porque, acima de tudo, uma greve não consegue (não tem conseguido!) atingir os objectivos a que se propõe. Logo, é minha opinião que se devam encontrar outras formas de protesto.
Em três pontos tentarei esclarecer a minha posição:
1. Uma greve é uma paragem no trabalho que, quanto muito, beneficia patrões e Estado.
A cada paragem "geral", em termos de produtividade do país, fica em causa um valor aproximado de 0,01% do PIB (se a greve for bem sucedida). Uma paragem num "fim-de-semana prolongado" (ponte) atinge um valor próximo dos 0.1% do PIB.
Na prática, os portugueses "gostam" mais de uma boa "ponte" do que de uma greve. É a história que nos tem mostrado isso.
Ora, se a ideia é prejudicar o "Estado" (que somos todos nós!), façamos então mais "pontes".
Por outro lado, só na função pública, uma greve com uma média de 50% de "grevistas" faz o estado "economizar" 1M€! E o Governo (qualquer Governo!) agradece. Poupa e nem por isso tem de mudar políticas (ainda mais aquelas em que não pode mexer!)
Além de, como é sabido, uma greve significar, em média, menos 50€ nos bolsos do "grevista". A mim, esse dinheiro faz diferença.
2. Uma greve é, tendencialmente, um espaço de "manifestação" esgotado.
Veja-se, por exemplo, o caso de França (aumento da idade da reforma). Há mais de um mês que as greves se sucedem e se mantêm "em alta". Efeitos? Nenhuns.
A política social europeia "prefere" greves a alterar o seu caminho.
Como docente, dou ainda mais um exemplo: quantas greves do passado fizeram mudar políticas? Poucas ou nenhumas.
Dou exemplos: Greve e Manifestação contra a alteração do calendário escolar para o pré-escolar (nos dados do sindicato, 91% de adesão). Efeitos: continuamos com o calendário que foi, nessa altura, aprovado.
Greve e Manifestações de docentes contra a ADD (120 mil na rua, greves na ordem dos 80%). Efeitos: A ADD está aí, e em força.
Um pouco "mais longe": Greves e Manifestações contra a entrada de Portugal na CEE. Efeitos: agora somos todos "Europeus"!
3. Uma greve não mostra o "poder" dos trabalhadores.
A primeira vez que me "convocaram" para uma greve (há já alguns anos), perguntei o que poderíamos fazer (trabalhando numa escola, seria fundamental) para informar e esclarecer os utentes do espaço sobre as nossas razões. Para isso mostrei a disponibilidade de estar, na escola, todo o dia da paralisação, a informar e esclarecer os alunos e as famílias sobre os motivos da greve. Resposta de TODOS os colegas: "Estás maluco ou quê? Eu cá vou aproveitar para ficar em casa a corrigir testes!"
Por outro lado, as razões (aparentemente) são tantas para a greve que, na maior parte das vezes, nem são distinguidas por quem "vê" de fora o movimento.
Há uns anos, por ocasião dos plenários de educadores de infância (sobre o Calendário Escolar) sugeri, numa sala com mais de 400 profissionais que fossemos para um Centro Comercial, ao sábado, informar sobre as "nossas razões". Iam-me comendo vivo.
Desde aí tenho aceitado que, a melhor forma de agir colectivamente é fazendo-o de forma individual: votando esclarecido; colaborando com colegas e parceiros no sentido de, todos juntos, fazermos melhor no dia-a-dia; participando activamente nos fóruns e locais de reflexão sobre a nossa profissão; exigindo, das nossas chefias, qualidade e atenção e, além de tudo isso, intervindo activamente na nossa vida: quer exigindo qualidade, quer procurando a excelência.
Podem parecer palavras desadequadas e irrealistas, mas, infelizmente, se, entre nós, tivessemos durante os últimos 35 anos, procurado a Excelência naquilo que somos, que fazemos, que queremos, talvez a "Crise" não nos atingisse tão profundamente...
Mas, parafraseando (mais uma vez) o Edson Atayde: "A culpa de Portugal são os portugueses!"...
Por mim, estarei individualmente solidário com a Greve, mas estarei na escola, a explicar aos meus alunos porque é fundamental "intervir, exigir e manifestar"!
E já agora, seria interessante que todos nós reflectíssemos sobre os "objectivos" de uma greve.

(veja "Greve" na Wikipédia)

17 de outubro de 2010

Desadequações em forma de "Metas de Aprendizagem"....

Não sei se será este o espaço mais adequado para expressar a minha indignação, mas como quero fazê-lo, talvez (pelo menos) me chegue informação sobre como o fazer de forma mais direccionada.
Bem, mas passando ao que interessa.
Sendo eu educador de Infância, formador PTE e investigador na área das tecnologias, não me reconheço nas "Metas de Aprendizagem" que, de certa forma, nos são "impostas" pelo ME.
Especificamente na chamada nova área de Tecnologias de Informação e da Comunicação.
Se atentarmos nas ditas "metas", o que se propõe é que uma criança saiba manipular alguns "instrumentos tecnológicos" assumindo, contudo, o computador o espaço central desta "manipulação".
Também no 1º ciclo se repetem, de certa forma, as "indicações" instrumentais.
Ora, se como temos vindo a observar (até para os menos atentos) uma constante e exponencial evolução no que concerne aos "instrumentos" digitais, não só no seu espaço "hardware", mas, fundamentalmente, no espaço de aplicativos e, acima de tudo, interfaces, custa-me um pouco, enquanto docente, formador e investigador, que as "Metas de Aprendizagem" não abram já a porta a um conjunto de outras dinâmicas que, penso eu, em breve se tornarão fundamentais.
As questões da virtualidade, os novos instrumentos tecnológicos postos à disposição (de entre muitos, destaco os telemóveis), as redes sociais e e a Web 2.0 no seu todo, as novas estruturas do conhecimento multimédia (TDT, GPS, etc.) e até as plataformas multiacesso de carácter mais lúdico (PSPs, Nintendos, Wii e outras) mereceriam, penso eu, um superior enfoque em termos de organização de objectivos/metas de aprendizagem.
Mais uma vez se perdeu a oportunidade de dar um passo em frente.
Será porque são sempre os mesmos a pensar?
Não quero acreditar nisso. Até porque a informação e a disseminação de práticas e investigação desenvolvidas em todo o mundo são cada vez mais evidentes...
Será que ainda vamos a tempo? ou é apenas mais uma "trabalho" de Hércules?
Fica aqui a minha indignação, já que não posso fazê-lo em mais lado nenhum...

10 de outubro de 2010

O que podemos nós fazer?...

Por hábito e por interesse, sou, posso dizê-lo, leitor compulsivo de jornais, revistas e outras leituras que me possam dar (pelo menos) a sensação de "estar informado".
Aprendi, muito por "culpa própria" a fazer uma leitura crítica da maior parte dos escritos da Comunicação Social. Habituei-me a tentar encontrar uma espécie de "meio termo" que me permita ter uma visão mais aproximada do que realmente se passa.
Nas pequenas "notícias", há, na maior parte das vezes, mais informação pertinente do que nas "grandes reportagens" ou artigos de opinião de famosos (e bem colocados) "opinion makers". Grosso modo, estes, os últimos, limitam-se a reproduzir uma certa "visão", que, na maior parte das vezes é parcial e, muitas outras, "encomendada".
Nestes últimos tempos, mercê da tão propalada "crise", muitos têm sido os escritos que, quase de forma inocente, acabam por impor uma vontade culpabilizante, para que todos nós (os que trabalham, os que acreditam, os que se esforçam e, acima de tudo, os que somos vítimas de um "esforço concertado de manipulação") nos sintamos como que encurralados e sem grandes hipóteses de "respirar".
posto isto, pergunto-me (e ao expô-lo aqui, alargo a pergunta a todos os poucos que poderão ler-me) o que, na realidade, podemos fazer para partilhar das soluções.
Está visto, porque no-lo dizem insistentemente, que, acima de tudo, devemos "partilhar" da diminuição dos valores (reais) dos nossos salários, das maiores contribuições sociais e das "colectivas" acções de "solidariedade institucional"...
Mas o que é que nós podemos, mesmo, fazer diariamente?
Eu aponto três possibilidades; se cada um de nós apontar outras tantas, se calhar podemos, num esforço independente e autónomo, que, na pior das hipóteses, não prejudicará, mudar alguma coisa...
Ora cá vão as minhas:
1. Usar mais os transportes públicos e menos os veículos próprios. Se, de cada vez que abastecermos, estamos a "importar" energia (na forma de combustível), podemos diminuir, "a la longue", a dependência energética e, consequentemente, os gastos de importação;
2. Comprar mais produtos "Made in Portugal". Se tivermos o cuidado de escolher os artigos que, normalmente consumimos, feitos em Portugal (mesmo que com know-how estrangeiro), apoiaremos a produção nacional e contribuímos, mais uma vez, para a redução das importações;
3. Nos nossos locais de trabalho, assumirmos um comportamento menos despesista. se tivermos em conta, por exemplo, que o custo médio do envio de um fax é de 0.60€, e um e-mail nos "custa" 0,04€, há que fazer "escolhas" interessantes. O orçamento disponível integra todas estas "pequenas contas".
E já agora, se em vez de levarmos a esferográfica no bolso, a deixarmos para que outros a utilizem, também estamos a evitar que nos "invadam" os rendimentos mensais...
Sei que não são "soluções"milagrosas, nomeadamente comparando-as com os gastos que os organismos públicos usam em aquisições de viaturas, medalhas comemorativas e outros tais, mas, se cada um de nós fizer o seu esforço, pode ser que alguma coisa mude.
Porque, no final de contas (e como já está mais do que demonstrado, nos últimos 24 anos em Portugal), não serão os políticos eleitos que nos livrarão da "crise".
Dá que pensar, não dá?

7 de outubro de 2010

Recessões...

Nos últimos dias, tem sido evidente que a palavra (e o conceito) de Recessão tem sido a que mais tem estado na "boca de toda a gente"...
Qual pasta medicinal, todos falam dela, todos esgrimem argumentos, todos (se) justificam.
É o FMI, é a OCDE, é o Banco de Portugal e ainda do próprio Governo.
Com estimativas de queda do PIB de 1,4%, a coisa não será fácil.
Mas interessa, por agora, saber se as "medidas de austeridade" resolverão alguma coisa.
Os cortes, o desemprego, a taxa de inflação, não perdoam.
E nós?
Os 18,5% de Pobreza (dados de 2008!) têm, necessariamente, de nos assustar.
Mas a minha pergunta é: continuaremos (individualmente, nos nosso postos de trabalho - quem os tem -, nas nossas actividades profissionais e pessoais) a ignorar a "crise"?
Esta pergunta relaciona-se, acima de tudo, com a capacidade de, no nosso "pequeno" mundo pensarmos (e agirmos) solidariamente. Será que, quando, nos nossos "serviços" tivermos de escrever um apontamento, uma nota, utilizaremos uma folha de papel já usada (reaproveitando-a)? ou que, em vez de mandarmos o fax necessário, seremos capazes de ligar o computador e enviar uma mensagem de e-mail? ou ainda, no momento de comprar produtos de limpeza, optaremos pelos mais indicados (que, normalmente, por se destinarem a um fim específico, são mais baratos)?
Ou, em outra perspectiva, vamos optar por andar de transportes públicos (favorecendo, dessa forma, a Economia) em vez de levarmos o nosso veículo privado?
Pode parecer pouco indicado e até algo estúpido, mas é nestes "pequenos pormenores" que podemos fazer a diferença.
Mas, sinceramente, acho que não o faremos. Estamos demasiado habituados (e porque não dizer: dependentes) aos "pequenos luxos individuais" para pensar de outra forma...
Como bons portugueses, costumamos achar que "quem vier atrás que feche a porta".
Mas vamos entalar-nos. Somos mesmo quem "vem atrás"...
Pensemos então...

25 de setembro de 2010

Aferições...

Foi apresentado (sem pompa nem circunstância, como a actual "crise" obriga) o Plano da Educação para o próximo triénio.
Das novidades esperadas, poucas (ou nenhuma, para ser sincero) surpreendem. Contudo, há uma ou duas questões que nos podem (devem) assustar.
A primeira (e para mim mais pertinente) prende-se com o "objectivo" de "aumentar e melhorar os resultados escolares dos alunos". Este objectivo, sem dúvida adequado, vem, no entanto, "embrulhado" num presente explosivo: faz-se depender os níveis de partida dos resultados das provas de aferição.
Até aqui, para um leigo, julgo não existir qualquer tipo de problema.
Mas, se quisermos ir um pouco mais ao fundo, e, principalmente se conhecermos algumas das premissas que consubstanciaram a existência de provas de aferição, não podemos deixar de nos preocupar.
As provas de aferição, apresentadas, na sua génese como uma forma de "aferir" as aprendizagens dos alunos em diversos momentos da sua frequência escolar, foram, num primeiro tempo, "construídas" como elementos avaliativos de "menor importância". Posteriormente, com o surgimento da regulamentação do modelo de Avaliação de Desempenho dos Docentes, foram apontadas como elementos contributivos.
Após a contestação que tal procedimento motivou, o Ministério da Educação recuou e deu por "dispensáveis" estes elementos de avaliação.
Contudo, porque havia que enviar dados para a Europa, continuaram a realizar-se e (aqui é que é importante parar!) de certa forma, porque seria importante maquilhar os números (subsídios "oblige"!), organizaram-se de forma a "simplificar" e "inflacionar" os resultados reais.
Quem esteve envolvido nos imensos grupos de correctores, supervisores e acompanhantes, sabe que a "ordem" era (é!) para "subir", ou seja, "em caso de dúvida, favorece-se o aluno". Claro está que, neste momento nem me interessa discorrer sobre as "enormidades" que daí advieram, com especial enfoque nas "actualizações conceptuais", que, em alguns casos tornaram credíveis e acertadas lógicas e procedimentos que, desde sempre, foram considerados errados e negativamente "educativos"...
Mas, como escrevia, o que me assusta não é tanto as questões das "enormidades" nas próprias provas e no processo de elaboração/execução, mas sim no "futuro próximo", que faz garantir os resultados a atingir pelas Escolas com base nos resultados das Provas de Aferição.
Se tivermos em conta o estado bastante inflacionado dos resultados, podemos, desde já, imaginar o esforço hercúleo que as escolas terão para suplantar os valores que, por "obrigação" administrativa, tiveram de apresentar. Quer isto dizer que, por exemplo, as escolas terão como valores de referência (para a "melhoria dos resultados escolares dos alunos") valores completamente inalcançáveis.
Posto isto, resta-me dizer: e nós, estamos à espera de quê?

3 de setembro de 2010

5 Mitos sobre "Complexos Escolares"...

Muito se tem falado, por estes últimos dias e na sequência do encerramento de (tantas!) escolas, nomeadamente no já desertificado interior rural do país, dos Complexos Escolares.
Sem dúvida que, na maior parte dos casos, devemos reconhecer que os custos associados à manutenção de espaços, equipamentos e pessoal, bem como à rentabilização social e pedagógica do investimento são, à luz dos "novos" parâmetros económicos (ou economicistas!), desnecessários e até de evitar.
Contudo, esta "normalização económica" faz com que as velhinhas "escolas" do Plano Centenário, as P3 ou mesmo as escolas da República que, em alguns casos, durante mais de 50 anos se mantiveram como efectivo centro cultural e social de um determinado local, fiquem, literalmente, votadas ao abandono.
Esta é, talvez, uma das análises a fazer, no que concerne às questões associadas ao problema da "desertificação".
Contudo, e após prática de cinco anos em "Complexos Escolares", que, grosso modo, dou como positiva, levantam-se algumas questões que resolvi considerar como Mitos Associados aos Complexos Escolares.
A ver:

Mito 1. Os complexos escolares disponibilizam melhores espaços.
Não sendo completamente errada esta afirmação, há, contudo, que fazer algumas ressalvas, nomeadamente no que diz respeito à qualidade dos espaços, à sua adequação e adaptação.
Acredito que as equipas que os planeiam, organizam e constroem estão imbuídas de nobres intenções, contudo (e claro que falo apenas da minha experiência) falta alguma sensibilidade pedagógica e mesmo social na sua concepção.
Como "casos concretos", apresento apenas algumas "questões" que vale a pena reflectir: porque é que, na maior parte das vezes, os espaços (salas) dedicados a actividades de complementos educativo (prolongamentos, ATL, CAF, etc.) são espaços mal equipados, distantes da entrada/saída dos edifícios (tendo em conta que, será, teoricamente nestes espaços que se fará a recepção/entrega dos alunos) e, normalmente insuficientes para a totalidade dos alunos que o vão frequentar (se considerarmos, num complexo escolar de média dimensão - cerca de 300 alunos - que a(s) sala(s) dedicadas a estas actividades têm, no máximo 60mt2 para cerca de 20% dos alunos, ou seja, cerca de 60 alunos, significará menos de 1mt2 por aluno)?
Ou, em alternativa, a questão de acessibilidade: quando se juntam salas de pré-escolar e de primeiro ciclo na mesma escola, com, normalmente as primeiras a ocuparem os pisos térreos, porque então colocar "serviços" (biblioteca, salas de informática, etc.) nos pisos superiores?
Impedem um fácil acesso e tornam-se "pouco utilizados".

Mito 2. Os complexos escolares dispõem de melhor equipamento
Sem dúvida que, na maior parte das vezes, o equipamento disponível é melhor adequado e em maior quantidade, contudo, as "salas de informática", as bibliotecas, os refeitórios e outros espaços "multidisciplinares" e multifuncionais pecam pela necessidade de manutenção e gestão que, na maior parte das vezes é inexistente ou desadequada.
Veja-se o caso das salas de informática. Com equipamentos "avançados" (nas palavras dos gestores), mas, normalmente, mal organizados e com questões complexas de gestão. A organização e manutenção é assegurada por técnicos autárquicos, correntemente sem qualquer formação pedagógica e "com pouco tempo" para assegurar um efectivo acompanhamento; as salas não são desenhadas de acordo com as necessidades educativas; não dispõem de equipamento acessível a todos (especialmente nos casos de alunos com Necessidades Educativas) e, na maior parte das vezes, nem sequer "funcionam" como espaços pedagógicos.
Há ainda a questão dos espaços de trabalho para docentes: normalmente deficitários em termos de equipamento, não promovem, por exemplo, uma efectiva articulação educativa, pois, globalmente, mantêm as características/paradigmas das escolas que lhes deram lugar: cada um no seu canto!

Mito 3. Os complexos escolares dispõem de mais pessoal
Este mito é, automaticamente, descredibilizado pelo tipo de "atribuição" de pessoal não docente às escolas: a partir do momento em que funciona o critério "rácio", as coisas complicam-se. Ou seja, de que forma é que, existindo um rácio suportado pelo número de alunos (e, dessa forma, presumindo que a existência de pessoal não-docente é, fundamentalmente, para apoio pedagógico) se limpam e mantêm espaços "extra" (bibliotecas, salas de apoio, salas de informática, refeitórios, etc...)?
Tomemos como exemplo um espaço de jardim de infância com três salas (75 alunos) incluído num complexo escolar: se existirem duas assistentes operacionais (rácio de 1 adulto por cada 40 crianças), para, fundamentalmente, se proceder ao apoio pedagógico educativo (5 horas lectivas diárias), quem mantém (limpa) o polidesportivo, a biblioteca, os WCs, etc.? Além de que os espaços comuns da escola são também utilizados por todos os alunos e famílias do jardim de infância...

Mito 4. Os complexos escolares disponibilizam melhores serviços de apoio
Sem dúvida que, se centrarmos a "oferta" de serviços nas questões da alimentação (refeições) e do acompanhamento extra-horário (prolongamentos, actividades de enriquecimento curricular, etc.), há uma melhoria efectiva que deve ser destacada, contudo, e mais uma vez (e até por algumas "razões" antes apresentadas), se falarmos de "serviços", não podemos descurar a qualidade da oferta destes serviços, e se tivermos em atenção que, na maior parte das vezes, os serviços que realmente se poderiam destacar são fornecidos por empresas, por técnicos com pouca (ou nenhuma) formação ou ainda por funcionários com também outras funções (ou até mesmo por docentes), chegaremos, facilmente, à conclusão que os "serviços" e a forma como são prestados não correspondem aos desejos antes enunciados.

Mito 5. Os complexos escolares favorecem a Articulação/Continuidade Educativa
Este é, talvez, o mito que o é apenas porque, neste momento, é ainda cedo para avaliar, efectivamente, a transversalidade da oferta e a efectiva articulação pedagógica conseguida.
No entanto (e mais uma vez refiro a minha prática), quando estes complexos escolares comportam, fisicamente, mais de um ciclo de ensino mas apresentam, na sua construção e organização, diversos espaços delimitados e confinados, é difícil, senão impossível, aproximar técnicos, docentes, alunos...
Se num complexo escolar com dois ciclos, há duas salas de professores, uma porta que divide, fisicamente, os espaços, uma gestão que "obriga" a um "pedido de licença" específico de utilização de espaços comuns ou ainda uma "discriminação" relativa ao uso de equipamentos e materiais (fotocopiadoras, faxes, etc...), então, a "articulação" (que deveria passar por uma efectiva aproximação entre profissionais), fica condicionada à partida...
Também para os alunos, que se vêem "obrigados" a viver em espaços (parques, recreios, etc.) distintos, a articulação (pessoal e social) com outros alunos e esquemas de funcionamento, não existirá.
Pelas "razões" que apresentei e outras mais que poderia referir, há, julgo eu, bastantes condicionantes (e meramente em termos pedagógicos e educativos) a uma efectiva "vantagem competitiva" dos novos espaços escolares.
Que estas reflexões possam ajudar a resolver problemas. Sinceramente que gostava.

1 de setembro de 2010

Porquê ir "para fora cá dentro"?

A pergunta que faço, no título deste post, deve-se às experiências que me foram concedidas neste período de férias.
Por opção (forçada, mas opção), dediquei estes (poucos) dias de descanso profissional a "visitar" o que por cá temos. Devo dizer, antes de mais, que me orgulho de conhecer bastante bem o nosso país (que desde cedo escolhi conhecer) e, em alguns casos, o que optei por fazer este ano foi "revisitar" alguns sítios que não visitava há bastante tempo.
Apesar de ter começado por locais tão distantes como Caminha ou Sobral de Monte Agraço (só para lá chegar foram quase 45 minutos!), o que me chocou mais foi mesmo visitar o Castelo de S. Jorge.
Começando: já não ia visitar o local há cerca de dez anos. As memórias que dele tinham eram, apesar disso, bastante presentes. Lembrava-o como um local interessante mas um tudo nada "parado". Ou seja: um local que merece uma visita esporádica, nesse intervalo de tempo. É interessante "ver" Lisboa desse ângulo...
O que não esperava era que me pedissem sete euros (!) para aceder ao seu interior. E ainda menos esperava que se mantivesse tudo (mas absolutamente tudo!) na mesma.
É inacreditável o elevado preço para nem sequer existirem umas placas descritivas, ou algum tipo de animação, ou mesmo algo por que o preço valha...
Começa tudo na bilheteira: um conjunto de diferentes "modelos" de bilhete (com exclusão de professores que, como eu, pretendam, também, preparar uma possível visita pedagógica com os seus alunos), no qual apenas os residentes no Concelho de Lisboa têm entrada gratuita (azar o meu que resido em Odivelas!). Dos muitos "tipos" de bilhetes, nem um que pudesse "favorecer" um visitante como eu: que até convidei uns amigos para me acompanharem, e, por isso, senti-me na obrigação de lhes pagar a entrada...
Depois, lá dentro, uma imensa pobreza paisagística: apenas as fabulosas vistas de Lisboa (que, contudo, são igualmente esplendorosas a partir do "gratuito" Jardim do Príncipe Real), mas tudo o resto, decididamente, inócuo e repetitivo. O castelo de Beja, apesar de despojado de "animação", está bem melhor. E a visita é gratuita.
Por último, apenas uma esplanada (integrada no restaurante do local) onde me pediram dois euros por uma garrafa de água de 33cl...
Mas para acabar em grande, a visita pelo bairro do Castelo (que me mostrou um Teatro Romano cada vez mais votado ao abandono), grosso modo, mal cuidado e pouco "turístico (com o miradouro João Castilho votado ao abandono e à degradação) culminou no pagamento da módica quantia de 4.90€ de parque, por duas horas de "visita"...
Tudo somado, o dia saiu-me por muito mais do que uma diária na República Dominicana na tarifa "tudo incluído"... E no Castelo de S. Jorge nem sequer passei a noite...
Não fossem as "mais-valias" de um "passeio" a Caminha, onde ainda é possível aproveitar, quase gratuitamente, das excelentes condições de visita e animação (além de óptimas paisagens, cuidadas e mantidas), o "ir para fora cá dentro" deixaria muito a desejar... (e nem falo no Algarve, em Torres Vedras ou no Cartaxo, por onde também andei...).
Se me sentisse bem, poderia, de certeza, ter deixado umas migalhas nos cofres das empresas (e instituições) portuguesas e, dessa forma, contribuir também com um pequeno quinhão para a recuperação económica nacional, mas, assim, a coragem não é muita.
Juro que não gastarei muito mais dinheiro a "ir para fora cá dentro". Na realidade, e apesar de defender até à exaustão o que de tão bom temos, começo a ficar cansado de que não olhem por nós. Se calhar tenho de imigrar, para que tudo me pareça mais belo quando voltar...
Tenho pena. Muita pena!

5 de agosto de 2010

Não há longe, nem distância...

Hoje relembrei o título de um livro do Richard Bach que li nos "fulgores" da minha adolescência...
Já não o lembrava, mas, quando se recuperam memórias de amigos, de "prazeres", de momentos, tudo funciona como uma espécie de "marcador".
É, sem dúvida, uma verdade inquestionável: Não há longe, nem distância!
E que bom é confirmar isso. Está tudo tão perto. Tão docemente perto. Os sons, os cheiros. As "vibrações" dos momentos vividos.
Voar para perto dos que nos querem e a quem nós queremos não é assim tão difícil.
Façamo-lo!

1 de agosto de 2010

Ler, Ver, Sentir...

Hoje não me apetece ler.
É raro o dia em que não me apeteça fazê-lo.
E sinto-me triste, melancólico, desinteressado por não querer fazê-lo.
Os livros (e as revistas e os jornais, e os folhetos e as legendas...) fazem parte daquele tipo de "instituições" sem as quais não posso viver. É nos livros (ou melhor, nos "escritos") que encontro, quase sempre, aquela força, aquela vontade de continuar. Aquela capacidade de suportar, de imaginar que o melhor está a chegar.
Mas hoje não me apetece ler.
Porque será?
Espero que me passe depressa esta não-vontade e que tudo se recomponha.
Sinto-me estranho por isto...

22 de julho de 2010

"Mudar as regras"...

Ontem ouvi o Ministro Adjunto (Pedro da Silva Pereira) afirmar, entusiasticamente e com toda a "certeza" do seu ser, em relação à proposta do PSD de Revisão Constitucional, que "mudar as regras do jogo a meio não faz parte da consciência política deste Governo"...
Será que se esqueceu que foi o "seu" Governo que alterou, "a meio do jogo", a idade da reforma, o sistema de avaliação dos funcionários públicos (professores incluídos), as regras para acesso aos serviços (mínimos) de saúde, a organização do mapa de escolas, o atendimento (de segurança) às populações...
Claro está (como eu sempre aqui defendi) que as mudanças, globalmente, são boas. Mas uma coisa é fazerem-se "porque sim", outra coisa é ter o período adequado para as reflectir e, se necessário, integrar.
Ou seja, mudar as regras a meio do jogo: Sim! Mas se todos os jogadores as analisarem e integrarem em devido tempo. E acima de tudo, que haja um consenso generalizados sobre as suas mais-valias...

Tempos cheios

Há muito que por aqui não parava...
Têm sido dias cheios, intensos, demorados, em alguns casos, irracionais. Sem tempo para parar. Sem tempo para pensar. Sem tempo para agir...
Tem-me movido a vontade de avançar, independentemente dos precalços, das dúvidas, das incertezas.
Dou por mim a reagir em vez de agir. E isso não é uma característica minha.
Mas espero que a chegada das férias, do tempo morno de suavidade e de "calorzinho bom" me ajudem a re-equilibrar os níveis.
Espero que sim.
Não sei se sim, mas espero que sim!
Até já!