2 de outubro de 2015

Porque vou votar

Não é fácil, em tempo de eleições, deixar de sentir aquele misto de descrédito, desespero e incapacidade de sentir esperança num futuro próximo.
Portugal é, na minha modesta opinião (e com culpa minha também) um país falhado no que ao envolvimento e participação cívica diz respeito.
Desde que me foi concedida a possibilidade de votar que aceitei esse dever como algo de muito sério e, desde sempre, assumi o compromisso de o honrar com a minha presença, na assembleia eleitoral, bem como com o meu voto, de avidamente validado e consciente.
Não obstante, como comecei por referir, chegados que estamos, mais uma vez, ao ato eleitoral que decidirá (?) politicamente os próximos quatro anos da ação governativa, não posso deixar de estar sem esperança no que ao que o futuro nos pode trazer...
E não será tanto por conta das "opções políticas" que qualquer governo escolherá (essas estão já descritas, ou não fosse a Grécia o melhor exemplo de capitulação e humilhação perpretada a um Estado soberano - independentemente das "culpas" que cada cidadão grego pudesse ter tido na situação económica "apresentada"), nem pela austeridade necessária para reequilibrar as "contas públicas", onde a desorganização tanto se deve às auto-estradas construídas pelos governos escolhidos por nós como aos automóveis franceses e alemães que as circulam com combustíveis ingleses e espanhóis que nós compramos...
A falta de esperança, portanto, não se deve tanto ao espectro de "oportunidades" com que os partidos políticos se apresentam a plebiscito; deve-se sobretudo à evidente incapacidade de cada um de nós escolher "outra coisa qualquer".
E, ao "escolhermos o mesmo de sempre", tornámo-nos reféns da causa e da consequência de uma mesma circunstância.
Porque o fazemos?
Talvez porque a nossa "cultura" cidadã (fruto da nossa educação), se tem revelado insuficiente para compreendermos, de facto, a implicação das escolhas individuais na organização do Estado que dizemos "exigir". No fundo, e rapidamente: quem paga os "benefícios" que exigimos? Nós, com os impostos que não pagamos?
Logo, uma das formas de sairmos deste ciclo que se repete ad eternum, talvez fosse pensando a Educação como um pilar essencial (mesmo fundamental) para a mudança.
Por tal, e não me escusando nunca, a votar, iniciarei o período de reflexão, que dentro de horas começa, com uma leitura atenta: "Pensar Educação" (edição Educa, com coordenação da Manuela Silva, recentemente chamado aos escaparates) que faz eco da iniciativa Pensar a Educação, Portugal 2015, na qual orgulhosamente participei como moderador.
Do livro, retiro, para já, a seguinte passagem: "Importa, também, reconhecer que, sobretudo na última década, professores e educadores foram sujeitos a uma notória desqualificação social, por parte da opinião pública, nomeadamente por efeito de sucessivas práticas da Administração e das medidas de política educativa adotadas pelos últimos governos. A este propósito, merece relevo o que tem ocorrido nos concursos de admissão e regras de colocação de pessoal docente, o congelamento da progressão nas carreiras, um sistema de avaliação sujeito a arbitrariedades e permissivo à prepotência das direções e a escassa ou nula participação de todos os atores na elaboração de projectos educativos e na gestão dos agrupamentos, designadamente quando estes últimos se tornaram grandes máquinas de gestão empresarial.
Por outro lado, presentemente, recai sobre os professores, individualmente considerados, uma carga burocrática desmesurada que asfixia a necessária criatividade e disponibilidade para a função docente propriamente dita e obriga a pesado fardo sobre a sua vida pessoal e familiar" (p. 45)
Em relação ao meu voto, a única certeza, neste momento, é que o depositarei na urna com uma escolha clara.

9 de maio de 2014

Um Projeto Educativo Municipal?*

No concelho de Mafra, existem 4 agrupamentos de Escolas (Venda do Pinheiro, Armando Lucena – Malveira, Ericeira e Mafra) e uma escola Secundária (José Saramago). Na sequência da alteração e reordenamento da Rede Escolar (da responsabilidade do Ministério da Educação e Ciência), o município de Mafra, dando seguimento a uma ideia que, de certa forma, estava já presente na Carta Educativa do Conselho, convidou os agrupamentos a refletir uma proposta de documento, com vista à reflexão, discussão e execução de um Projeto Educativo Municipal que potenciasse, no espaço educativo, uma comunidade educativa real e atingível.
Em termos de organização, gestão e equipamentos escolares, Mafra caracteriza-se por ser um dos concelhos da Grande Lisboa com a melhor cobertura escolar (oferta pública) para as crianças e jovens pré-universitários e distingue-se por ter potenciado um crescimento qualitativo dos resultados escolares dos seus alunos ao longo dos últimos trinta anos. Este desígnio diferenciador empolgou os parceiros educativos, e fez surgir um Projeto Educativo Municipal, aprovado (um pouco “à pressa”) antes das últimas eleições autárquicas, condicionando, por isso, decisões futuras.
Neste debate sério e necessário (que não aconteceu), a Escola deveria ter sido vista como um espaço de partilha, de co-responsabilização, de colaboração e de cooperação.
A gestão pedagógica centralizada e de índole nacional (através do Ministério da Educação e Ciência), em oposição à localização municipal, na qual a responsabilidade sobre edifícios, organização funcional de pessoal e a gestão do apoio às famílias não permitiu (por razões várias, mas, quase todas devidas a uma incompreensão dos papéis, de parte a parte) a assunção de um efetivo espaço de entendimento.
O documento aprovado enferma das dificuldades decorrentes desta incompatibilidade e, para lhes fazer frente, teria sido necessária uma reflexão ampla, participada, honesta e séria de e com todos os atores e não apenas dos seus colégios representativos (alguns departamentos municipais, conselhos consultivos dos agrupamentos e diretores escolares).
A reflexão a fazer teria de ter sido alargada ao cidadão, à empresa, ao parceiro educativo, para que o documento, com este alcance (o de servir, educacionalmente, toda uma comunidade), pudesse ser o reflexo das legítimas expectativas e anseios da população e, acima de tudo, das suas perspetivas de futuro.
O documento apresentado no final do ano passado (e disponível no sítio da Câmara Municipal de Mafra) é um rol de intenções administrativas, orgânicas e funcionais que esquece (fruto, talvez, da referida incompatibilidade) que Educação é muito mais do que gerir os recursos. Educar é promover, potenciar, fazer crescer toda uma comunidade.
E, um Projeto Educativo local que esquece as especificidades económicas, turísticas, sociais (de habitação, por exemplo) ou culturais de toda uma comunidade, como base do seu desenvolvimento, pode, apenas, ser considerado como um “projeto inicial de trabalho”.
Cabe-nos a nós, todos os mafrenses, participar e contribuir para a existência de um projeto educativo que, junto das nossas crianças e jovens, lhes mostre as potencialidades de possuir uma Reserva Mundial de Surf, uma economia local pujante, com uma indústria transformadora de carne única e uma das maiores áreas nacionais de monocultura agrícola, por exemplo.
Saber isso é, também, contribuir para a localização e distinção do processo educativo.
Não o desperdicemos.

*Artigo publicado no jornal regional "O Carrilhão" (Mafra), em 15 de abril de 2014, na rubrica "Reflectir Educação"

6 de março de 2014

A Escola De Hoje *

Com o advento de um novo modelo social, no qual as famílias (as avós, os vizinhos, etc.) deixaram de poder ser um esteio na co-responsabilidade da prestação de cuidados às crianças e jovens, em períodos de tempo complementares à frequência escolar, temos constatado um conjunto enorme de alterações nas dinâmicas das famílias.
Hoje já não é assim tão comum encontrar famílias que prescindam dos serviços extra-escolares de apoio.
Se por um lado cresceram as ofertas educativas e sociais da escola (com os espaços escolares a adaptarem-se a novas exigências e a fornecerem serviços até há bem pouco tempo impensáveis), por outro, os docentes (e demais cuidadores) assumiram novos papéis, acompanhando esta sociedade que muda e que exige que a Escola assuma uma atitude mais assistencialista do que educativa, centrada na formação e na instrução.
Podemos confundir os termos, e claro que “educação” é muita coisa. Mas, neste caso, a alegoria africana que é conhecida de muita gente, pode ajudar: “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”.
À escola devemos exigir, antes de mais, que instrua. Que transmita. Que exija.
Mas, na instrução cabe, antes de mais, a necessidade de criar cidadãos interessados, participativos, solidários e envolvidos.
Não é menos verdade que, se, enquanto comunidade, depositámos na Escola a arte e o engenho de oferecer muito mais serviços de apoio às famílias, isso, se refletido seriamente, obriga-nos a reconhecer a falência da instituição escolar. Por vezes, exigimos à Escola respostas que não fazem parte da sua cultura, da sua especificidade, do seu saber.
Refeições, serviços complementares de apoio às famílias, atividades complementares ou apoio especializado (psicólogos, acompanhamento nutricional, projetos de apoio social – pequenos almoços para famílias desfavorecidas, fruta escolar, etc.) não são, por natureza, atividades da Escola.
Têm vindo a ser os serviços municipais a assegurar estas respostas complementares que, contudo, se processam num espaço delimitado e predefinido, cuja responsabilidade formal, não é sua. E essa falta de responsabilidade, por vezes, leva a dificuldades operativas que urge clarificar para resolver.
Se quisermos ser honestos, não podemos responsabilizar um professor pela qualidade (ou falta dela) das refeições escolares, nem podemos responsabilizar os serviços municipais pelo insucesso escolar dos alunos.
Mas existe uma relação direta entre ambas. E saber isso implica que tenhamos uma consciência clara do papel de cada um dos lados que se movimentam neste espaço, dos seus papéis, das suas áreas de intervenção e, sobretudo, dos seus projetos.
Por isso, exigir à escola que eduque, no sentido mais lato do termo, o que define a tal “obrigação” da aldeia, não pode (nem deve!) ser feito sem que se construam as condições mínimas para tal. E essas tais condições implicam que existam espaços colaborativos, que sejam assumidos, desenvolvidos e que, necessariamente, sejam tidos em conta na hora das decisões. Não bastam “colégios eleitorais” ou “grupos de cidadãos”. A cidadania ativa é individual. Não podemos, enquanto comunidade, permitir que os atos eleitorais sejam os únicos momentos em que decidimos o nosso futuro e o das gerações que deixamos.
Participar é fundamental. De forma consciente e clara.

*publicado no jornal "O Carrilhão", 01.03.2014, na rubrica "Reflectir Educação"

12 de fevereiro de 2014

A Escola completa*


Ao longo dos últimos vinte, trinta anos, a Escola (como espaço institucional, organizativo, administrativo...) tem vindo a mudar a sua faceta de construtura de conhecimento para uma estrutura homologadora de bem estar social.
Cresceram as ofertas educativas e sociais da escola, os espaços escolares adaptaram-se  novas exigências e até os docentes assumiram novos papéis. A sociedade mudou e o aspeto da escola mudou com ela.
É até possível, atualmente, encontrar escolas onde até o jantar é servido, carinhosamente, a todos aqueles alunos que, por uma ou outra razão, não foram recolhidos pelos seus encarregados em "horário útil".
A Escola, tal como a conhecemos hoje, deixou de ser um espaço de instrução e conhecimento para se transformar num espaço de solidariedade social.
Os docentes têm, atualmente, diversas funções, que não apenas as de ensinar e promover o conhecimento. Espera-se deles que sejam assistentes sociais, psicólogos, médicos, enfermeiros e até polícias.
Os gestores escolares têm funções tão centradas na gestão e na administração empresarial que, em muitos casos, transformaram, inconscientemente, a educação em mercadoria transacionável, cujo "valor de mercado" define o sucesso ou o insucesso das práticas educativas (muitas vezes sem olhar a questões específicas, pessoais, locais e/ou sociais...).
Os cuidadores (vulgo assistentes, contínuos, técnicos...) chegam à escola, na maior parte das vezes, com pouca ou nenhuma formação específica (seja pedagógica ou apenas lúdica e didática), para responder a outras necessidades, entretanto criadas (horários alargados, serviços complementares, etc.)
Por tudo isto, a Escola tem vindo a mudar.
E, lenta e compassadamente, todos nós vamos aceitando estas mudanças sem as questionar, sem as confrontar e, muitas vezes, sem refletir nelas ou, ainda mais grave, sem perspetivar a médio ou a longo prazo as alterações globais e definitivas que provocam na vida das comunidades.
Ao integrar e aceitar como "normais" as novas funções da escola, acabamos por ser, mesmo que inconscientemente, responsáveis por alguns dos efeitos negativos perniciosos dos tempos modernos.
É corrente ouvirmos (e por vezes dizermos) que a escola é, cada vez mais, um espaço de educação e que a família deixou de o ser. Se entendermos a palavra "educação" como um conjunto de pressupostos de convívio, de responsabilidade, de respeito e de solidariedade social, essa não deveria ser a função prioritária do sistema de formação de um país ou de uma comunidade.
Nesse sentido mais lato e abrangente, compete às famílias (e à comunidade) educar. A natureza da escola é outra. A sua função primordial é formar, instruir e transmitir o conhecimento.
Podemos sempre achar que reduzir o papel da escola à sua função primária é negar a sua importância ou mesmo diminuir a sua condição. Contudo, no conceito de instrução cabe, antes de mais, a função de criar cidadãos interessados, participativos, solidários e envolvidos que sejam conhecedores do seu património (cultural, artístico e criativo) e que respeitem os valores sociais que servem de base às relações interpessoais e comunitárias.
Este é, atualmente, o desafio da escola e das comunidades: reacreditar a Escola como espaço de preparação social e de divulgação do conhecimento é, atualmente, o desafio a que temos (todos!) de responder. Pode parecer um chavão reacionário. Mas basta perceber onde chegou a "vida na escola" para percebermos que algo tem de mudar na escola e nas comunidades. 

*texto publicado no Jornal "O Carrilhão", em 01 de fevereiro de 2019, na rubrica "Refletir Educação"


9 de novembro de 2013

Seleção Nacional

Usando uma das prerrogativas que nos são dadas (?) pelas "redes sociais", e que, num discurso mais coloquial se chama também ser "treinador de bancada", vou aproveitar alguns dos milésimos de segundo de fama que um texto publicado (e depois difundido através das "redes sociais") me permite...
Como ponto(s) prévio(s) afirmo apenas que:
1. Não sou "encaixável" em visões dualistas da sociedade;
2. Não me apetece ter de "justificar" as escolhas ao pormenor e
3. A discussão "esquerda"/"direita" não pode (deve) bloquear a possibilidade de conjecturar (neste particular, e se temos de "dividir", prefiro uma discussão mais centrada no "conservadorismo"/"liberalismo económico"..

Assim sendo, e após o(s) ponto(s) prévio(s), aqui vou...

Têm sido, na sociedade portuguesa [e entenda-se aqui "sociedade portuguesa" aquela que advém da reflexão feita na (e pela) comunicação social, as "opiniões" demonstradas nas "redes sociais" e, sobretudo, as atitudes diárias das pessoas que se cruzam comigo] muito debatidos os conceitos de crise, dívida, democracia, partidarismo e, sobretudo, competência.
Têm sido apontadas, também, uma diversidade de possibilidades, ideias, respostas, propostas, evidências e, sobretudo, "soluções"...
De todas (e são muitas), e não me coibindo de as refletir, de as triangular, de investigar "mais fundo", fica-me sempre a ideia de que serão, sempre, "soluções" baseadas na experiência, no conhecimento e nas práticas já "usadas".
Porque me parece que "as soluções" terão de advir de um novo modelo (social, económico, cultural e educativo) e, sobretudo, coordenadas e, de certa forma, dinamizadas por pessoas que não estejam reféns de "experiências passadas" ou, por outras palavras, não estejam dependentes de "valores" ilegítimos, é-me fundamental perceber que as "pessoas" que são capazes de organizar um plano sério e credível que, na realidade (e por mais que isso possa, num determinado momento, "assustar"...), sejam capazes de levar para "fora do quadrado" a reflexão sobre o futuro de Portugal e dos portugueses...
Porque me parece útil que esta "reflexão" tenha por base um conjunto de pressupostos, estas "pessoas" devem ter demonstrado opiniões coerentes (e se possível com "currículo" prático), devem ter uma consciência clara que o "esforço" terá de ser global e, sobretudo, que saibam que não serão os partidos (tal como os conhecemos)  deliberar sobre soluções para um modelo que eles próprios (os partidos) criaram...
Pelo exposto, e tentando sair da simples afirmação do "devia ser assim", proponho-me a "indicar" um conjunto de pessoas que, na minha opinião, poderiam, se devidamente enquadradas (e sobretudo, legitimadas), encontrar soluções. Fosse como "ministros" fosse como "Governo de Salvação Nacional"...
Sei que esta pode (e será de certeza!) apenas uma tentativa espúria, mas já ficaria satisfeito se, aos olhos de alguns "amigos" se considerasse "a discussão"...
Assim sendo, (e, neste momento, dados os "termos" constitucionais, só se fosse por "iniciativa presidencial"), gostaria de "ver" uma equipa de portugueses a refletir, seriamente, as opções políticas e sociais para que Portugal, de uma vez por todas, pudesse ter um futuro...
A minha "seleção nacional" seria:

Economia/Finanças: José Gomes Ferreira (jornalista)
Educação/Juventude/Desporto: Eduardo Marçal Grilo (gestor)
Justiça/Administração Interna: Maria José Morgado (magistrada)
Ambiente/Ordenação do Território: Carlos Pimenta (gestor)
Saúde: João lobo Antunes
Defesa: Jaime Ferreira da Silva (Capitão de Marinha)
Agricultura: Ricardo Brito Pais (Presidente da AJAP)
Trabalho: Maria João Rodrigues (Consultora)
Todas estas escolhas são discutíveis. Claro.
Mas é para isso que cá estão...
Já não estaremos em tempo de começar a ver para além do óbvio?...


4 de julho de 2013

Que "Cultura" de Estado?

Nestes últimos dois dias tenho (temos!) vivido uma espécie de esquizofrenia social.
Por um lado (o dos comentadores, o dos "opinion makers", o dos "filhos do(s) sistema(s)"), há como que uma preocupação (que não me atrevo a dizer legítima) sobre a situação e as "condições" do país.
Relembro que, a maior parte dos "comentários" vêm na sequência da demissão do Ministro das Finanças e posteriormente, do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
Por outro lado há uma tendência para dizer "eles" em situações que todos sabemos que seria mais adequado e sério dizer "nós"...
Independentemente das "razões" apontadas, há uma ideia que me fica a ressoar na cabeça: são todos meninos reguilas e mimados.
Comentadores e políticos!
E são-no porquê?
Porque não me parece que tenham (ou não querem ter!) uma cabal visão da situação que eles próprios criaram.
Neste momento, o país vive refém de birras e infantilidades, do "quero, posso e mando" tão característico de crianças que foram criadas sem SABER, sem CONHECER, sem experimentar na pele o que de fundamental existe na dinâmicas pessoal, nas relações humanas e, sobretudo, na teia do relacionamento social.
Pode esta prosa parecer retórica, desenquadrada, desajustada. E pode até parecer simplista.
Mas se olharmos atentamente aos factos, talvez não seja assim tão descabida.
Temos um primeiro-ministro que fez toda a sua "formação" nos corredores do poder, de jotinha a administrador de empresas sorvedoras dos dinheiro públicos, em companhia de "poderosos" que o escolheram pelos seus dotes e convicções amistosas para com as "causas" que defendem.
Tivemos um primeiro-ministro que se situou no mesmo espaço de "crescimento pessoal".
Temos (tivemos?) um Ministro de Estado que é um político profissional e, por tal, está imbuído dos ditames e das dinâmicas dos "corredores do poder".
Temos um Presidente da República que advém de um grupo de "patos bravos" que, um dia, prometeu "vingar-se" de quem lhes teria (a si e às suas famílias) feito mal numa convulsão social chamada 25 de abril...
Poderia continuar a enumerar, mas penso que, com estes parcos exemplos, se chega rapidamente à conclusão de que, entre aqueles que nos "governam" não haverá muitos que sejam detentores de uma efetiva "cultura" social.
Não leram a "Mãe", do Gorki; não sabem quem é Kafka; na escola "passaram os olhos" pelo "Os Maias" apenas porque um qualquer professor os "obrigou"...
Não serão estes os títulos mais "sérios e fundamentais" (poderia enumerar alguns efetivamente importantes, mas ficaria a "falar sozinho"...) que definem uma "cultura", mas servem para sustentar a evidente falta de cultura, de história, de responsabilidade de que são "vítimas".
Mudar este paradigma político e social (que é como quem diz: mudar estes políticos) não é uma tarefa fácil nem breve.
É antes uma mudança a fazer ao longo de gerações.
Mas, ter consciência disto, neste momento, é assustador.
Portugal não tem "esse" tempo. Não tem.
Mas, ao olhar para a "Educação" atual, ainda mais assustador se torna a visão (inexistente) de uma potencial mudança.
Nos últimos quatro ou cinco anos os docentes das escolas onde tenho estado têm sido, na generalidade, mais novo que eu. E é aterrador constatar que a maior parte deles não lê (não leu!) sequer "Os Lusíadas", o "Frei Luís de Sousa" ou o "1984"...
E isto para nem elencar um conjunto de livros que sustentam as bases de um conhecimento profundo de si e dos outros, de modelos sociais e, sobretudo, da História da humanidade...
E "isto" é aflitivo.
É aterrador.
Como pode ser possível ensinar valores, ética, atitudes (ou simplesmente potenciar experiências) se não existe, sequer, um conhecimento médio das "razões" que sustentam os modelos sociais em que vivemos...
Fomos, lentamente, desenvolvendo o culto do "umbiguismo" como fonte de vida. O dinheiro assumiu o espaço principal, quase religioso, nos objetivos de quase toda a gente. E de lá não sairá facilmente.
Torna-se "desadequado" pretender "ter uma conversa" séria sobre Valores, sobre Ética, sobre Atitudes nas escolas, hoje em dia.
Quem o pretende fazer ganha um selo de "inconveniente"...
As práticas atuais vivem do compadrio, da corrupção (até de ideias), de plágio, de facilitismo...
Os professores são, na generalidade, os mais "umbiguistas" (nem sequer me atrevo a relatar situações concretas!...) e, quer queiramos, quer não, são (foram)eles quem, consciente ou inconscientemente nos trouxeram até aqui.
Ninguém me convence do contrário.
Não me demito das responsabilidades, mas teimo em não aceitar "ser como eles"...
Não quero e não vou fazê-lo.

15 de junho de 2013

Educadores "menores"...

Sou Educador de Infância de profissão, Educador de Infância por vocação e, acima de tudo, Educador de Infância porque acredito, sinceramente, que os profissionais de educação de infância são capazes, competentes, conhecedores, talentosos e, acima de tudo, dedicados.
Por isso, ao ler, nas redes sociais, alguns comentários, afirmações, perguntas e outras "dúvidas", não resisiti a "escrever para nós"...
Lia há pouco , entre outras coisas, a tremenda "insatisfação" que advém do facto de "sermos considerados 'gente' menor" (e neste epíteto incluo educadores de infância, profissionais de educação e terapêutica infantil, etc...)...
Pois bem, sem querer entrar em grandes provocações, se assim é, deixo uma pergunta (séria) para nos fazer refletir um pouco:
O que é que temos feito (e reparem que eu generalizei) para
que a "opinião pública" tenha, dos profissionais de educação de infância uma imagem de competência, seriedade, congruência?...
Sei que surgirão, de seguida, alguns comentários pouco abonatórios para a minha pessoa, mas tentarei expor o meu ponto de vista, avisando, desde já, que a maior parte das perguntas que faço "nascem" das evidências sentidas, vistas e experienciadas...
- Ao longo dos últimos trinta anos, sempre que dá jeito, somos docentes... outras vezes somos educadores de infância...
- Sempre que exista uma decisão contrária aos interesses da Educação Pré-escolar (por parte do Diretor, do Conselho Pedagógico, do Conselho Geral...), optamos por achar que "isso é lá com eles..."
- Sempre que existe, em termos de reflexão profunda, algo que seria importante sublinhar, no interesse da Educação de Infância, optamos por não nos preparamos convenientemente para contrapor...
- Sempre que, por exemplo, num grupo de profissionais de educação de infância, se abrem reflexões substantivas sobre práticas, atitudes e/ou comportamentos, há 3 ou 4 pessoas que se manifestam efetivamente e uns outros tantos que adotam a atitude do "nim" (apesar de estar a referir espaços físicos, como Departamentos ou reuniões sindicais, por exemplo, esse comportamento também é vísivel por aqui...)
- Sempre que uma qualquer decisão deve ser tomada, vamos "embrulhando" a coisa até ficar mais ou menos ao gosto de toda a gente, sem nos expormos, sem nos assumirmos... (basta olhar para a generalidade dos representantes do pré-escolar nos órgãos dos agrupamentos, que assumem, de uma maneira geral, a posição do "filho bem comportado"...)
- Sempre que é preciso confrontar, optamos por assobiar para o lado...
Poderia continuar, mas, de certeza que os 10 ou 12 companheiros constantes de reflexão não iriam gostar e logo diriam que "não posso generalizar... que até fazem exatamente o contrário... que esta não é a realidade..."...

Contudo, são esses mesmo (os que se manifestam), que eu respeito. E porquê? Pela simples razão de que são Educador@s que dão a cara. Que lutam por ideais, que se envolvem...
Nos grupos de "Educadores", nas redes sociais, há centenas de profissionais inscritos. Por vezes, comentários de pendor mais reflexivo têm umas dezenas de "gosto" (que é uma forma de manter o "nim" que referia atrás), contudo, algumas imagens retiradas da net e expostas aqui (de bolinhos, de desenhos, de fichas...) alcançam muitas dezenas (às vezes centenas ) de comentários, muitas vezes redundantes...
Porque tenho sido muitas vezes acusado de ser deselegante e grosseiro (apesar de não ser a minha intenção), era bom, de uma vez por todas, que parássemos para refletir sobre o nosso "papel" no espaço da Educação em Portugal.
Não basta escondermo-nos atrás dos que caminham. Temos de levantar a cabeça e caminhar desafiantes...
Claro que, para o fazer, será conveniente preparamo-nos. Estudarmos. Percebermos. Lutarmos pelo que de muita qualidade fazemos. E isso dá trabalho!
Mas será a única forma de vermos as nossas competências reconhecidas. Inclusive pelos nossos pares.
Não podemos confundir as particularidades e especificidades do nosso trabalho (os "mimos" e "afetos" com que gostamos de nos particularizar) com a dimensão global de uma ótima preparação para todas as vertentes da vida dos nossos cidadãos.
Pensemos nesta frase de uma colega nossa que muito prezo: "os educadores de infância, no final do pré-escolar, acompanharam os seus alunos, em média, durante metade das suas (dos alunos) vidas. Não há outro docente, em mais nenhum nível, que passe tanto tempo com os seus alunos..."
A nossa responsabilidade é enorme. Mas temos de o saber demonstrar...
Por tudo isto, assumamos, de uma vez por todas, a importância do que fazemos. Sem nos escondermos atrás deste ou daquele "interesse". Porque, na realidade, quando "acordarmos", pode ser tarde demais (há por aí quem ache que a gestão do pré-escolas pelas autarquias seria uma "solução", mas conheço o suficiente da realidade do país para discordar completamente).
E não nos esqueçamos que, para as nossas crianças, somos um exemplo....
Pois que seja um exemplo de certeza, de definição e de frontalidade!